No bairro Vale Quem Tem, na zona Leste da capital piauiense, moradores enfrentam problemas recorrentes no abastecimento e relatam precisar recorrer a carros-pipa para garantir o mínimo necessário à sobrevivência.
A situação, que já se arrasta há meses, levanta questionamentos sobre a qualidade dos serviços prestados pela concessionária Águas de Teresina e sobre a fiscalização realizada pelo poder público.
Como explicar que famílias de uma capital brasileira, em pleno 2026, ainda precisem depender de carros-pipa para ter acesso a um serviço tão essencial?
Vale Quem Tem: famílias enfrentam dificuldades até para as necessidades básicas
O problema no Vale Quem Tem vai muito além do desconforto de abrir uma torneira e não encontrar água.
A falta de abastecimento compromete a rotina das famílias, dificulta a preparação de alimentos, a limpeza das residências, a lavagem de roupas e os cuidados com a higiene pessoal.
Uma reportagem publicada em agosto já mostrava que moradores do bairro enfrentavam interrupções havia mais de dois meses.
Na ocasião, o morador Raimundo Mousinho, residente na região há mais de 20 anos, relatou que a falta de água também prejudicava estabelecimentos comerciais, oficinas, salões de beleza e outros pequenos negócios.
Segundo os relatos, moradores precisavam recorrer ao fornecimento por carros-pipa enquanto aguardavam uma solução definitiva.
O cenário expõe uma contradição: enquanto Teresina cresce e recebe investimentos em infraestrutura, parte de sua população ainda enfrenta dificuldades para ter acesso regular à água encanada.
Falta de água chega à Câmara Municipal e provoca cobranças
A crise no abastecimento foi tema de uma audiência pública realizada nesta quinta-feira (15), na Câmara Municipal de Teresina.
O encontro, proposto pelo vereador João Pereira (PT), reuniu parlamentares e representantes da Águas de Teresina para discutir os problemas enfrentados pela população.
Além do Vale Quem Tem, moradores de bairros como Buenos Aires, Mocambinho e Portal da Alegria também foram mencionados durante as discussões.
Segundo João Pereira, a Câmara recebe reclamações frequentes de famílias que enfrentam interrupções no fornecimento de água.
O parlamentar cobrou respostas concretas da concessionária e defendeu uma atuação mais rigorosa dos órgãos responsáveis pela fiscalização do contrato.
Nove anos de concessão e a população ainda cobra água nas torneiras
Um dos principais questionamentos apresentados durante a audiência foi a permanência dos problemas de abastecimento após aproximadamente nove anos de atuação da Águas de Teresina.
A diretora-presidente da concessionária, Lucilaine Medeiros, participou da discussão e afirmou que a empresa vem cumprindo as obrigações contratuais.
A concessionária atribuiu parte das dificuldades ao aumento do consumo durante o período de altas temperaturas e às interrupções no fornecimento de energia elétrica, que prejudicam os sistemas de bombeamento.
Também foram apresentadas medidas para ampliar a capacidade de produção e distribuição de água.
Mas as explicações técnicas não eliminam uma cobrança fundamental: quando a água voltará a chegar com regularidade às casas das famílias que enfrentam o problema?
Para quem depende de água diariamente, a solução precisa ser percebida na torneira, e não apenas nos anúncios de novos investimentos.
Águas de Teresina promete melhorias no Vale Quem Tem até novembro
Durante a audiência pública, a concessionária apresentou um cronograma de intervenções para melhorar o abastecimento em diferentes regiões da capital.
No Vale Quem Tem, a previsão informada é de conclusão de obras até novembro.
Em outras áreas das zonas Leste e Sul, a empresa anunciou expectativa de melhorias em aproximadamente 20 dias.
Em posicionamento anterior, divulgado em agosto, a Águas de Teresina informou que havia identificado vazamentos na região e iniciado a instalação de um equipamento de bombeamento, conhecido como booster, para melhorar a pressão da água na rede.
Enquanto os prazos anunciados não se concretizam, permanece a preocupação dos moradores com a continuidade das interrupções.
Vereadores discutem possibilidade de intervenção na concessionária
Diante das reclamações, o vereador João Pereira defendeu que o município avalie medidas mais rigorosas caso os problemas persistam.
Entre as possibilidades debatidas está uma intervenção na concessionária, mediante os procedimentos legais e contratuais cabíveis.
A medida ainda não foi determinada pela Prefeitura de Teresina.
A discussão, porém, aumenta a pressão sobre a empresa para que apresente resultados concretos e cumpra os compromissos assumidos diante do Legislativo municipal.
E quem fiscaliza o abastecimento de água em Teresina?
A crise também levanta questionamentos sobre a atuação dos órgãos públicos responsáveis por acompanhar a qualidade dos serviços prestados à população.
A Agência Municipal de Regulação de Serviços Públicos de Teresina (Arsete) possui atribuições de fiscalização e acompanhamento da prestação dos serviços regulados.
Diante das reclamações, algumas perguntas precisam ser respondidas:
- Quantas famílias do Vale Quem Tem estão sendo afetadas pelas interrupções?
- Qual é a frequência do abastecimento por carros-pipa e quem assume os custos desse serviço?
- Quais providências e eventuais penalidades foram adotadas diante das falhas registradas?
- O que será feito caso as obras prometidas para novembro não resolvam o problema?
São informações fundamentais para que a população conheça as medidas adotadas e possa acompanhar os compromissos assumidos.
Água não pode ser tratada como privilégio
A falta de água representa um problema de saúde pública e compromete diretamente a dignidade das famílias.
Ter acesso regular à água potável não deveria depender da chegada de um caminhão, de improvisações domésticas ou da expectativa de que o abastecimento seja restabelecido durante a madrugada.
A população paga pelo serviço e tem o direito de cobrar qualidade, continuidade e transparência.
O caso do Vale Quem Tem precisa de respostas, prazos cumpridos e soluções permanentes.
Em uma cidade que enfrenta temperaturas elevadas durante boa parte do ano, garantir água nas torneiras não é luxo. É uma necessidade básica.
O Teresinapontocom continuará acompanhando as reclamações dos moradores, os compromissos anunciados pela concessionária e a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização.
Porque, em pleno 2026, depender de carro-pipa para realizar necessidades básicas em uma capital brasileira é uma situação que exige explicações e providências urgentes.
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