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Se a criança melhora a coordenação, por que ainda precisa de ajuda para se vestir?

A abordagem CO-OP parte de atividades importantes para a criança e utiliza estratégias de resolução de problemas para favorecer o desempenho no cotidiano.

Se a criança melhora a coordenação, por que ainda precisa de ajuda para se vestir?
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Por Pablo Henrique Doudement Lopes

Terapeuta Ocupacional


Você escolheria uma autoescola que treinasse sua atenção, seus reflexos e os movimentos das mãos, mas nunca o colocasse para dirigir? A comparação ajuda a pensar sobre uma questão da Terapia Ocupacional: como os avanços observados durante o atendimento se relacionam com aquilo que a pessoa precisa fazer no dia a dia?


Uma criança pode apresentar ganhos de coordenação e continuar precisando de ajuda para colocar a camiseta. Vestir-se envolve lidar com a roupa, encontrar suas aberturas, organizar os movimentos e responder às condições daquele momento. Por isso, a melhora de uma habilidade e o desempenho de uma atividade precisam ser acompanhados como resultados relacionados, mas distintos (Blank et al., 2019).

A abordagem CO-OP propõe trabalhar diretamente com atividades significativas e envolver a criança na descoberta de estratégias para realizá-las. O exemplo da camiseta é uma forma de compreender essa proposta.

O que é a abordagem CO-OP

CO-OP é a sigla de Cognitive Orientation to daily Occupational Performance, apresentada em português como Orientação Cognitiva para o Desempenho Ocupacional Diário. Desenvolvida inicialmente para crianças com Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação (TDC), a abordagem passou a ser investigada em outras populações, incluindo pessoas autistas (ICAN, s.d.).

Seu foco é ajudar a pessoa a aprender atividades que considera importantes e desenvolver estratégias para enfrentar dificuldades durante sua realização. A criança participa da escolha das metas, enquanto o terapeuta observa o desempenho e conduz um processo de descoberta guiada. Isso pode envolver vestir-se, usar talheres, escrever ou andar de bicicleta, conforme os interesses e as necessidades de cada pessoa (ICAN, s.d.).

Começar pela atividade que a criança quer realizar

Esse modo de organizar a avaliação e a intervenção se aproxima do raciocínio top-down: começar pela ocupação e pelo contexto em que ela acontece. Se a meta é vestir a camiseta, o profissional observa a criança tentando se vestir e identifica onde surgem as dificuldades. A análise considera a pessoa, a tarefa e o ambiente para orientar as decisões clínicas.

Meta, plano, faz e confere: como funciona na prática

Uma estratégia central da CO-OP é Goal–Plan–Do–Check, que podemos apresentar em linguagem acessível como Meta–Plano–Faz–Confere. A pessoa identifica o que deseja realizar, elabora um plano, coloca esse plano em prática e avalia seu resultado (Rodger; Brandenburg, 2009).

Imagine uma situação ilustrativa em que a criança quer vestir a própria camiseta, mas o braço fica preso. O terapeuta pode perguntar: onde prendeu? Como você poderia encontrar a manga? O que podemos testar? A criança participa da construção de um plano, experimenta e observa o que aconteceu.

A estratégia específica pode ser localizar a manga antes de passar o braço ou mudar a posição da roupa. A solução depende da dificuldade observada e precisa ser testada naquela atividade. O profissional ajusta as pistas e o apoio para favorecer a participação da criança na resolução do problema.

A CO-OP reúne escolha de metas, análise dinâmica do desempenho, estratégias cognitivas, descoberta guiada e princípios que favorecem a aprendizagem, dentro de um formato estruturado. Família ou outras pessoas significativas podem participar. As quatro palavras ajudam a explicar a abordagem, mas sua aplicação clínica envolve esse conjunto de elementos (ICAN, s.d.).

O que as pesquisas mostram sobre CO-OP e autismo

Um estudo canadense publicado em 2025 recrutou 27 crianças autistas de 8 a 12 anos, com TDC, sem deficiência intelectual e com comunicação verbal. Após dez sessões semanais voltadas a três metas escolhidas pelas crianças, foram observadas melhoras no desempenho percebido, na satisfação e na qualidade da execução das tarefas (Kangarani-Farahani; Thompson-Hodgetts; Zwicker, 2025).

No acompanhamento de parte da amostra, os ganhos nas metas e na qualidade da execução permaneceram três meses depois. A medida de proficiência motora geral não apresentou melhora significativa ao longo desse seguimento. Os achados são promissores para o perfil estudado, mas a amostra pequena e o desenho quase experimental limitam as conclusões. São necessárias pesquisas maiores e com participantes de diferentes perfis (Kangarani-Farahani; Thompson-Hodgetts; Zwicker, 2025).

No Brasil, Azevedo e colaboradoras (2024) relataram uma intervenção adaptada com uma criança autista de 7 anos, atendida em uma clínica-escola da Universidade Federal da Paraíba. Houve evolução em quatro das cinco atividades escolhidas. O estudo contribui para discutir a viabilidade da abordagem no contexto brasileiro; por envolver um único caso, oferece evidência preliminar e não permite estabelecer eficácia para a população autista.

O relato brasileiro também descreve adaptações para apoiar a compreensão e o envolvimento da criança. Isso reforça a importância de avaliar individualmente a comunicação, os interesses e os apoios necessários, preservando os elementos centrais da abordagem (Azevedo et al., 2024).

Aprender na clínica e usar no cotidiano

Generalização e transferência são objetivos da CO-OP (Rodger; Brandenburg, 2009). Na prática, é preciso verificar se a criança consegue usar o que aprendeu fora da situação de treino. No exemplo da camiseta, observar o desempenho em casa ajuda a acompanhar a generalização. Investigar se a estratégia de planejar, testar e conferir ajuda em uma tarefa nova permite examinar a transferência.

A família pode colaborar oferecendo oportunidades de prática e relatando o que funciona na rotina. A diretriz para TDC destaca a participação de familiares, professores e apoios do ambiente para favorecer o uso das habilidades em diferentes contextos (Blank et al., 2019). Essas oportunidades devem ser planejadas conforme as condições e as prioridades da família.

Como acompanhar os resultados

Os resultados precisam ser relacionados às metas escolhidas. A Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (COPM) permite registrar a percepção de desempenho e de satisfação. A Performance Quality Rating Scale (PQRS) acrescenta a observação da qualidade da execução. Ambas foram utilizadas em pesquisas de CO-OP com crianças autistas (Rodger; Brandenburg, 2009).

No exemplo do vestir, também faz sentido acompanhar quanto apoio a criança precisa, em quais etapas encontra dificuldade e como realiza a atividade na rotina. São aspectos que ajudam a interpretar o progresso e a revisar o plano terapêutico.

Como essa proposta se relaciona com a integração sensorial

Na minha prática, também utilizo integração sensorial e escolho as intervenções de acordo com as necessidades e os objetivos de cada criança. Apresentar a CO-OP amplia a discussão sobre como favorecer o desempenho em atividades significativas.

No exemplo da camiseta, pode haver dificuldades de planejamento e também desconforto com a textura da roupa. Essa situação ilustrativa mostra por que o raciocínio clínico precisa considerar diferentes barreiras e acompanhar seus efeitos na atividade. Os estudos citados sobre CO-OP e autismo não estabelecem uma comparação direta de superioridade em relação à integração sensorial.

Para a família, uma pergunta útil é: qual atividade a criança quer aprender e como vamos acompanhar esse aprendizado no cotidiano? A partir dessa meta, terapeuta, criança e familiares podem construir um percurso que amplie a participação e as possibilidades de escolha, com os apoios necessários a cada pessoa.


Referências

AZEVEDO, L. L. O. C. et al. ‘Tentar já é bastante coisa’: abordagem de orientação cognitiva para o desempenho ocupacional e transtorno do espectro autista: relato de caso. Revista Interinstitucional Brasileira de Terapia Ocupacional, v. 8, n. 3, p. 2641–2657, 2024.

https://doi.org/10.47222/2526-3544.rbto61564

BLANK, R. et al. International clinical practice recommendations on the definition, diagnosis, assessment, intervention, and psychosocial aspects of developmental coordination disorder. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 61, n. 3, p. 242–285, 2019.

https://doi.org/10.1111/dmcn.14132

INTERNATIONAL COGNITIVE APPROACHES NETWORK (ICAN). The CO-OP Approach. s.d. Acesso em: 6 out. 2026.

https://www.icancoop.org/pages/the-co-op-approach-1

KANGARANI-FARAHANI, M.; THOMPSON-HODGETTS, S.; ZWICKER, J. G. Effectiveness of Cognitive Orientation to daily Occupational Performance for autistic children with developmental coordination disorder. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 67, n. 2, p. 216–222, 2025.

https://doi.org/10.1111/dmcn.16058

RODGER, S.; BRANDENBURG, J. Cognitive Orientation to (daily) Occupational Performance (CO-OP) with children with Asperger’s syndrome who have motor-based occupational performance goals. Australian Occupational Therapy Journal, v. 56, n. 1, p. 41–50, 2009.

https://doi.org/10.1111/j.1440-1630.2008.00739.x


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